sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Faculdades não preparam professor de Educação Física para trabalhar na escola


Professor assistente da Unicamp e pesquisador em Educação Física, o chileno Jorge Gallardo é um dos que advoga um novo papel para a disciplina nas escolas, que seria ainda muito ligada ao lúdico e ao lazer. Segundo Gallardo, a prática de atividades físicas poderia ser muito mais conectada à cultura de um país, estimulando brincadeiras, jogos interativos e até o trabalho voluntário. O professor vem ao Rio para o 16º Congresso Internacional SM Fitness & Wellness, que começa nesta sexta até domingo no Colégio Santa Mônica, em Jacarepaguá.

Qual a importância da Educação Física na escola?
A Educação Física escolar hoje não leva em conta seu verdadeiro valor, está subordinada às diretrizes da área da saúde. E isso leva a procurar objetivos praticamente impossíveis de se alcançar, como a melhoria da saúde, a diminuição da obesidade, da criminalidade... As causas estão principalmente nas instituições de formação dos profissionais, que preparam o licenciado em Educação Física para trabalhar, principalmente, fora da escola (academias, clubes, etc.); mas não no âmbito do ensino básico. É praticamente impossível atingir êxitos desportivos e de saúde com apenas um encontro semanal de 50 a 60 minutos, com turmas numerosas, 35 a 40 alunos e com uma infraestrutura precária.

Mas o que a disciplina pode trazer de benéfico para o aluno?
O verdadeiro valor da Educação Física escolar ficará em relevo quando ela se transformar em disciplina, ou seja, quando adquirir o mesmo valor das outras matérias do currículo, quando ela criar seu próprio conteúdo e tiver autonomia para aplicá-lo. O corpo de conhecimentos dessa disciplina, segundo o nosso grupo de estudos, são as manifestações da cultura corporal, que devem ser pedagógicas para levá-las para o ambiente escolar: esportes, conhecimentos sobre o corpo, anças, jogos, elementos das artes marciais, ginásticas, elementos das atividades de expressão corporal das artes cênicas, artes circenses, artes musicais e das artes plásticas.

As diretrizes curriculares de Educação Física propostas pelo MEC estão defasadas?
O problema das diretrizes curriculares é que elas ainda procuram o domínio técnico das manifestações da cultura corporal e não o domínio conceitual, que é o onde deveria focar. O domínio técnico exige muito tempo de prática e a aula não tem essa condição, só no espaço extra-aula seria possível. É fora da escola que se encontra a maior riqueza e possibilidades de praticar alguma manifestação cultural que tenha sido vista nas aulas de Educação Física, na forma de vivência. No entanto, esse espaço não pode ser utilizado apenas para a prática dos esportes tradicionais.

Qual a relação entre o voluntariado e a Educação Física? É possível que um estimule o outro?
O grande desafio para a Educação Física no ensino médio é formar agentes socioculturais. Todos os que em algum momento foram técnicos ou professores de alguma modalidade sabem muito bem que os participantes mais avantajados nos auxiliam, assumindo algumas responsabilidades com seus colegas de turma. Capacitar os alunos como agentes socioculturais nos permite a construção de uma cidadania autônoma e participativa. Assumir funções de liderança na escola e na comunidade é transformar o aluno em cidadão soberano, e este deve ser um dos papéis mais importantes da educação física escolar.

Como a cultura e o folclore brasileiro podem ser trabalhados pela Educação Física?
Todas as manifestações da cultura corporal devem ter um espaço nas aulas de Educação Física na escola. Os professores devem pesquisar cada uma das manifestações juntos com os alunos e escolher com quais eles serão analisados e vivenciados. Num pequeno desafio, pense quantos jogos de sua localidade você conhece, ou quantas danças. Mais interessante ainda: as escolas podem ver o mesmo conhecimento, mas o conteúdo ser diferente.

O estímulo aos jogos eleva o desempenho acadêmico dos alunos?
Essa é ainda uma grande questão, já que tudo pode ser visto de forma lúdica e prazerosa e não necessariamente deverá ser um jogo. Para entender melhor o jogo, devemos pensar nos objetivos que estão por trás da atividade. Temos as brincadeiras, que são explorações de uma atividade de forma livre e criativa; temos o jogo consensual, que é uma atividade organizada por normas construídas pelos participantes, as que podem mudar, para adequar-se ao momento e as características do contexto. E finalmente temos os jogos com regras que devem ser assumidas para poder participar.

E qual é a mais importante do ponto de vista acadêmico?
A brincadeira e o jogo consensual são muito mais pedagógicos do que o jogo com regras, já que eles são construídos pelos participantes e adequadas às características do contexto físico e social no qual, nesse momento, o grupo se encontra. Por exemplo, brincar com cordas pode ser um excelente desafio para que os alunos em grupos inventem e criem diferentes brincadeiras, e que depois mostrem suas descobertas aos colegas. Também, pode-se escolher aquelas brincadeiras que sejam mais relevantes para a turma e mostrá-las à comunidade escolar, seja num festival ou evento escolar.

O senhor defende que universidades e escolas brasileiras concedam bolsas de estudo para alunos com bom desempenho em algum esporte, assim como já ocorre nos Estados Unidos? Além disso, o senhor concorda com a necessidade de teste físico no vestibular para Educação Física?
Não concordo com nenhuma das duas. As Universidades devem formar pesquisadores em suas respectivas áreas de atuação, sejam eles professores, engenheiros, advogados, médicos... O professor de Educação Física deve ser um pesquisador das manifestações da cultura corporal de seus alunos e um transformador dessas descobertas em material ou conteúdo para estruturar o currículo escolar. Veja bem, o professor estuda de 3 a 5 anos para se tornar professor pesquisador, com autonomia e poder para transformar seu espaço de intervenção. As escolas não são locais para treinamento, o local do treinamento é o clube ou centro esportivo; a escola deve facilitar o desenvolvimento de todo o potencial do aluno. Mas esse potencial não pode ser somente o esportivo, o artístico também deve ser considerado.


O Globo

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A educação física escolar mais valorizada

O grande desafio do educador físico não é somente dos dias atuais. Ele já vem há tempos. O professor de educação física vem lutando bravamente para demonstrar que esta disciplina é tão ou mais importante do que as tradicionais como língua portuguesa, matemática, geografia e história, apenas, listando essas para início de argumentação. A educação física tem papel fundamental no desenvolvimento motor, social e cognitivo das crianças.

Mesmo que seja uma matéria obrigatória, a EFI ainda não tem como obrigação o professor da área, ou seja, nas séries iniciais o unidocente é quem ministra. Acredito que esta seja a luta mais importante da categoria no momento. Não se pode negligenciar a importância de quem estudou, se dedicou anos de sua vida, e que pode produzir um resultado melhor junto à classe de estudantes nesta fase. Lembrando sempre que é nesta faixa etária que o período é o mais apropriado para o desenvolvimento das habilidades motoras.

Remontando a história da educação física na escola no Brasil, esta se iniciou de forma controversa. Algumas iniciações formais foram feitas, mas nenhuma com muita convicção e força. Porém, somente, em 1920, a educação física é inserida através dos estados e ainda popularmente conhecida por ginástica. A princípio, a educação física, quando inserida no currículo escolar, era tida como um momento para a prática da ginástica, com a finalidade de deixar o corpo saudável.

No âmbito de modelos pedagógicos da educação escolar, a educação física esteve presente com o embalo do futebol verde-amarelo. Na era ditatorial, fora adotado o modelo esportivista, visando o tecnicismo. Logo após, como contraponto, surgiu o modelo recreacionista – “rolar a bola” e marcar o tempo – sem ter unanimidade, ou melhor, sem ter sido defendido pelo corpo docente.

Creio que essa pecha ficou encravada por muitos anos no seio da educação física escolar. Para libertar desse rótulo não tem sido fácil. Pois, nos dias de hoje, existe quem ainda utilize desse subterfúgio para garantir as horas trabalhadas na escola. Penso que ainda são poucos, mas infelizmente existem.

Felizmente, novas práticas pedagógicas surgem. São novas abordagens introduzidas no meio escolar, onde se destacam a psicomotricidade, a abordagem desenvolvimentista, a abordagem construtivista-interacionista, a abordagem crítico-superadora, a saúde renovada e, por fim, fala-se dos parâmetros nacionais curriculares. Obviamente, esses enfoques não teriam muitas chances de serem construídos sem a redemocratização brasileira. A educação foi beneficiada com novas concepções acadêmicas e oportunidades de reestruturação dos modelos educacionais, onde a educação física está inserida. Portanto, a valorização da disciplina educação física, juntamente com seus profissionais, tem princípio na década de 80.

Com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e com essas mudanças no pensar da educação física, observou-se a complexidade intrínseca e a natureza científica da mesma. Apresentou-se uma ciência específica e que se relaciona com as outras ciências. Conforme os PCNs, a educação física escola deve ser constituída de três espaços que se comunicam. O primeiro é “jogos, ginásticas, esportes e lutas”; o segundo, “atividades rítmicas e expressivas” e, por fim, “conhecimentos sobre o corpo”.

Nesse momento, não iremos aprofundar no entendimento de cada bloco. Essa será matéria para um novo post.

A Educação Física tem uma vantagem educacional que poucas disciplinas têm: o poder de adequação do conteúdo ao grupo social em que será trabalhada. Esse fato permite uma liberdade de trabalho, bem como uma liberdade de avaliação – do grupo e do indivíduo – por parte do professor, que pode ser bastante benéfica ao processo geral educacional do aluno.

Retomando, com o advento e a introdução de novos princípios pedagógicos, a educação física na escola recebe uma nova roupagem. Vai perdendo aos poucos o status do tempo de lazer, tempo de trégua, do rola a bola, enfim, dessas rotulações depreciativas. Destarte, o educador físico passa a ter papel importante dentro dos muros escolares e não apenas do disciplinador, do quebra-galho e de tantas outras funções que não seriam somente exclusividade sua. Por outro lado, a comunidade acadêmica, com seus profissionais, obtiveram ganhos. A sociedade organizada pode usufruir destes avanços específicos. Ao insurgir contra o título de “disciplina menor” entre seus pares de docência escolar ou do simples entregar a “bola”, a EFI teve direito a conquistar o seu devido reconhecimento e respeito, vindo a ocupar o seu espaço dentro do meio estudantil.

Com o aprofundamento de estudos científicos na área, em condições melhoradas em relação à outrora, pode ser oferecido – resguardado as devidas proporções – o que há de melhor em seu conteúdo. A valorização do professor e da instituição escolar gera acesso aos conhecimentos da cultura corporal de movimento para os alunos e cria uma atmosfera propícia no palco da transmissão de conhecimento e do saber.

Conclamo a todos, refletir acerca do ensino da educação física escolar. É preciso que seja multiplicado estas contendas não só em meios escolares, mas por toda a sociedade, para que todos entendam a importância dessa disciplina para seus filhos. A lutar pela inclusão do professor de educação física nas séries iniciais.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Uma nova ferramenta

Este weblog nasceu de uma tarefa da disciplina Tópicos Especiais em Educação Física I, da ESEF/UFRG, e junto surgiu a pretensão de tornar este um meio informativo para professores e acadêmicos da área voltada à escola. Aqui, você encontrará planos de aula, artigos, pesquisas, jogos, regras, pedagogias e tudo que for relacionado à educação física escolar anos iniciais!

Bom proveito!