quarta-feira, 11 de novembro de 2015

As possibilidades das manifestações da lutas dentro da educação física escolar

A educação física tem como finalidade fundamental o desenvolvimento das habilidades fundamentais, o aperfeiçoamento, oportunizando a aprendizagem em relação às capacidades motoras, cognitivas e sociais, tendo como função de possibilitar a construção de seres críticos, autônomos e reflexivos, enquanto alunos e cidadãos. Segundo Vargas Neto e Voser (2001), o ensino do esporte, bem como, seus efeitos educativos depende do contexto onde se encontram, de aspectos sociais e principalmente da intervenção do agente educador. Observo que a educação física não pode ser erigida apenas nos modelos esportivos clássicos; pensamos que diversas práticas esportivas e culturais devem fazer parte da gama de repertórios e possibilidades nos locais das aulas. A resignificação das práticas esportivas e a utilização de técnicas, regras, leis, táticas são muito importantes no âmbito escolar. Conforme Paes (2001), a educação física escolar é a disciplina que, pedagogicamente, tem a finalidade de tratar de temas da cultura corporal. Ainda, permite que o aluno tenha a percepção corporal, dentro dos aspectos de suas possibilidades e limitações; bem como, o acréscimo gestual em seu repertório motor. Por fim, o forte apelo socializador através do esporte, das lutas, das danças, dos jogos e das ginásticas permite que laços de amizades entre alunos sejam estreitados.

As lutas e suas práticas, conforme os PCN’s, são conteúdos possíveis à educação física dentro da escola. “As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), com técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. Podem ser citados como exemplos de lutas desde as brincadeiras de cabo de guerra e braço-de-ferro até as práticas mais complexas da capoeira, do judô e do caratê” (BRASIL, 1997). Desta forma, as lutas e/ou as modalidades de esportes de combate (MEC), de uma forma ressignificada, podem e devem ser trabalhadas com alunos no ensino fundamental na medida em que são ferramentais de desenvolvimento motor, cognitivo e de inclusão social. Além do mais, oportuniza o conhecimento de outras realidades socioculturais, a partir das informações acerca das culturas, das histórias de outras nações que são berços das mais variadas formas de lutas. Dentro do espectro das lutas, encontramos três subdivisões, conforme Gomes (2010), seriam estas: “Esportes de Luta com agarre”, “Esportes de Luta com golpes” e “Esportes de Luta com implemento”.

As possibilidades dos conteúdos a serem trabalhados na abordagem das lutas dentro da aula de educação física são imensas. Dentro de um referencial teórico, podemos contextualizar as lutas, desde a sua história primordial até as suas manifestações mais atuais. Como elas (as lutas) evoluem, de quem e como se encontram. Apresentarmos algumas regras, leis e etiquetas dentro do espaço das lutas e como elas repercutem na sociedade. Trabalharmos com a discussão e reflexão do aprendizado das lutas e sobre a sua aplicação. De acordo com Barbieri (2001), esta premissa é uma constante no cotidiano do processo educativo. Debater questões pertinentes para que sejam desconstruídos alguns mitos e paradigmas como: violência (luta x briga); adversário não é inimigo; sobre gênero, o papel das mulheres no contexto das lutas; até mesmo as possibilidades e implicações das modalidades dos esportes de combate (MEC) dentro da disciplina educação físicas. No tocante da prática, a utilização da diversidade de materiais que as lutas proporcionam é absurdamente interessante. Contudo, a criação e a construção de materiais alternativos são enriquecedores. Exemplifico com a confecção de floretes (espadas) de jornal, para uma atividade de esgrima. Na questão dorganização dos tempos de aula, no primeiro momento, pode-se trabalhar com atividades lúdicas e de quebra-gelo, onde o contato corpo-a-corpo é iminente, para aquecimento. Podendo ser uma brincadeira de conquista de objetos e territórios: pegar vários (dois a três) pregadores (prendedores) que estão presos na camiseta na altura do peito, que por sua vez tenta se esquivar e, ao mesmo tempo, pegar o do colega. Guerra de polegares, brincadeira onde deve o aluno aprisionar o polegar do outro. Luta de galinhos: dois a dois, em posição de cócoras, usando somente as palmas da mão, tentam desequilibrar um ao outro. Sumozinho: em posição de agachamento fundo, também deve tentar colocar o seu colega sentado ao solo, realizando investidas com as mãos, ou forçá-los a sair do território demarcado. Ombro a ombro: usando somente um dos ombros, os colegas ficam contatados forçando para que o adversário saia da área; também, pode ser feito com o quadril ou outras partes do corpo. Cabo de guerra: usando uma corda, separam-se grupos em oposição que puxam a corda para que tragam os adversários para o seu lado. Cachorro-louco: onde um aluno é escolhido para ser o cachorro (pegador), em uma posição de quatro ou seis apoios, ele deve tentar pegar os pedestres. Ao ser tocado ou derrubado (o pego deve fazer o amortecimento de queda), vira cachorro louco e passa ajudar o colega. Pega-pega-corrente: escolhe-se um pegador e este tem que pegar um colega para iniciar a corrente. Ao pegar o colega, eles de mãos dadas passam a tentar pegar os outros. À medida que forem pegando, vão se dando as mãos até restar somente um. Existem inúmeras manifestações a serem trabalhadas. Estas são algumas constantes.

Dentro do segundo momento, podemos explorar os movimentos e as técnicas, extraídas de diferentes modalidades de combates, trazendo as mais variadas possibilidades de sua utilização. Usar gestuais que trabalhem com o equilíbrio, a velocidade, a força e a resistência; bem como, com as capacidades coordenativas. Todavia, a flexibilidade e a elasticidade são capacidades importantes no desenvolvimento das lutas, por isso, de acordo com Otoshi (1995), são faculdades que devem ser desenvolvidas no processo da aprendizagem de lutas. Sugerir variedades de deslocamentos, agarre no oponente, como projetar/derrubar, imobilizar e escapar, e amortecer quedas são de fundamental importância quando se trabalha com lutas. Ainda, experienciar chutar, socar, estrangular, realizar chaves de articulação, esquivar, defender são necessários para um maior aprofundamento; no entanto, em meu entendimento, não há a obrigatoriedade que se faça quando se trabalha com turmas mais insipientes. O jogo nesta parte da aula é de extrema estima. Ao ensinar técnicas novas se faz necessário que eles a executem e vejam a sua eficiência, permitindo que construam suas possibilidades de efetivação tanto para aprisionamento como fuga, por exemplo, no caso das imobilizações. O shiai, a luta em si, deve existir. Pensar que o aluno deve aprender lutando e não aprender para lutar. O professor nesse momento deve explicar alguns conceitos e regras para que este período ocorra com a máxima segurança. 

Algumas manifestações que podem ser trabalhadas na aula de educação física escolar:

  • Saudação; 
  • Posturas; 
  • Sentar – agura e seiza; 
  • Amortecimento de quedas (ukemi); 
  • Posição de guarda; 
  • Defesas (alta, média e baixa); 
  • Jab (soco); 
  • Direto (soco); 
  • Chute frontal; 
  • Chute semicircular; 
  • Chute lateral; 
  • Esquiva; 
  • Deslocamento para frente; 
  • Deslocamento para trás; 
  • Hon-kesa-gatame (imobilização); 
  • Juji-gatame (armlock); 
  • Hadaka-jime I (estrangulamento – mata-leão); 
  • Hadaka-jime II (estrangulamento – mata-leão); 
  • Sode-guruma-jime (estrangulamento – ezequiel); 
  • Guarda de pernas; 
  • Sankaku-gatame (triângulo); 
  • Sankaku-jime (triângulo); 
  • Projeções (O-soto-gari, de-ashi-barai, koshi-guruma, o-goshi, ipon-seoi-nage); 
  • Au (roda); 
  • Bananeira (três apoio); 
  • Ginga; 
  • Negativa; 
  • Chute (benção, ponteira, martelo, rabo de arraia, meia-lua).

Ao final, no terceiro momento, alguma atividade de volta à calma, podendo ser atividades que são usadas em outros esportes. O relaxamento, o trabalho de respiração – importante a conscientização da respiração nas lutas. O mokusô (meditação, harmonização e tranquilização da mente e da alma) e, por fim, o feedback.

Importante lembrar que as lutas possuem uma diversidade cultural vasta, que a criatividade do professor em buscar esses elementos e transpor para a aula é fundamental para construção de novos saberes.

Referências
  • BARBIERI, Cesar Augustus Santos. Esporte Educacional: uma possibilidade para a restauração do humano no homem. Canoas: Ulbra, 2001. 160 p
  • BOEHL, Walter Reyes. Apostila de judô exames de faixas. Judô Teresópolis Tênis Clube, Porto Alegre, 2012. Disponível em: <https://portaldojudors.files.wordpress.com/2015/10/apostila-de-judc3b4-ttc.pdf>. Acesso em: 11 nov. 2015.
  • GOMES, Mariana Simões Pimentel et al. Ensino das lutas: dos princípios condicionais aos grupos situacionais. Movimento: Revista da Escola de Educação Física da Ufrgs, Porto Alegre, v. 2, n. 16, p.207-227, abr. 2010.
  • OTOSHI, Christopher. Dicionário de Artes Marciais - Judô para Crianças de 5 a 13 anos. 2. ed. Porto Alegre: Rígel, 1995. 65 p.
  • PAES, Roberto Rodrigues. Educação Física Escolar: o esporte como conteúdo pedagógico do ensino fundamental. Canoas: Ulbra, 2001. 132 p.
  • Parâmetros curriculares nacionais: Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental. Educação Física/Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.
  • VARGAS NETO, Francisco Xavier de; VOSER, Rogério da Cunha. A criança e o esporte: uma perspectiva lúdica. Canoas: Ulbra, 2001. 126 p.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Resenha de Educação Física e Linguagem: Algumas Considerações Iniciais

O presente trabalho, de Maria Fernanda Telo Ladeira e Suraya Cristina Darido, tem como escopo analisar como a disciplina de educação física se comporta - no momento que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o Ensino Médio a insere – na área das linguagens, códigos e suas tecnologias. Baseadas em obras já publicadas sobre o tema, entrevistas com professores universitários que já tenham manifestações, de alguma forma, que permeassem o tema, as autoras buscaram desvelar este fenômeno. 

Na introdução, as autoras apresentam preocupação como o assunto vem sendo pouco explorado na área da pesquisa quando relacionados a educação física às linguagens. Quando são, conforme estas, contém uma atitude pouco sólida. 

Expõem que a educação física constar no bojo da área não pode ser considerado como uma incoerência; tampouco, uma novidade. Ladeira e Darido ensinam: “Na década de 70 foram lançados os guias curriculares que já incluíam a Educação Física na área de comunicação e expressão e considerava a ‘utilização do próprio corpo como meio de comunicação e expressão’”. Como podemos observar, ela já estava inserida na comunicação e expressão.

No texto, a educação física, em relação aos PCNs, “têm a intenção de sugerir formas de atuação que proporcionarão o desenvolvimento da totalidade dos alunos”. Mais em frente, apresenta o intento de dilatar pelo menos esta aptidão a de tornar possível a compreensão das diversidades culturais corpórea, ressaltando as singularidades dos conteúdos e resultados aos alunos do ensino médio que a disciplina provoca.

Ao adentrar no campo da linguagem propriamente dito - não que até o presente não tivesse sido abordado - as pesquisadoras se apoiam em Faraco. Discorrem sobre o assunto, como esta se articula e como atua. Como ela se apresenta e como é interpretada.

A problematizar relações na linguagem se faz necessário perpassar pela semiótica, uma vez que, esta é a ciência encarregada de estudar todo e qualquer tipo de linguagem. Conforme a pesquisa, sabido e consabido, à semiótica cabe investigar os elementos relacionados aos signos, aos ícones, aos sinais, aos símbolos e às suas dicotomias, como a conotação e a denotação, por exemplo. 

Seguindo, a linguagem corporal é acostada; no caso em tela, se faz de extrema importância conhecer os seus conceitos para se apropriar de suas significações para um melhor entendimento nas questões de importância e objetividade da educação física enquanto saber inserido na área. De forma sucinta, pode se observar que Ladeira e Darido, ao evocar Mesquita (1997), entendem neste formato. “Emitir, receber e perceber os sinais não verbais são processos independentes, ou seja, ocorrem sem que se tenha consciência do que está acontecendo. Estes processos, portanto, são naturais, mas podem se tornar habilidades”. Desta forma, conforme o texto, observa-se que a relação emissário, mensagem, receptor está constituída na formação do profissional. 

Adiante, com a educação física e linguagem, neste ponto, o estudo demonstra que fortemente, se não de configuração absoluta, a educação física é detentora da linguagem não verbal, ou seja, a comunicação corporal, através das mais diversas manifestações do corpo, torna-se presente. “Na perspectiva da reflexão da cultura corporal, a expressão corporal é uma linguagem, um conhecimento universal, patrimônio da humanidade que igualmente precisa ser transmitido e assimilado pelos alunos na escola. A sua ausência impede que o homem e a realidade sejam entendidos dentro de uma visão de totalidade”. Sendo a educação física o estudo do corpo em movimento, nada mais inquestionável do que estas ações são intrínsecas da linguagem não verbal.

A metodologia de pesquisa, como anteriormente referido, pautou-se em revisão da literatura (linguagem, linguagem não verbal e educação física escolar), entrevistas semi-estruturadas com professores especialistas da área, que em seus textos abordaram alguma questão básica sobre linguagem, ainda que não diretamente relacionada à educação física escolar. Nos resultados e discussão, nota-se que, apesar de apenas dois de forma mais consistente dos três entrevistados, além dos outros dois que não puderam responder, trazerem opiniões sobre o tema, o resultado percebido que a área é pobre em estudos e muito mais deve ser realizado.

Ao final, segundo o artigo, fica claro que o processo de comunicação é estabelecido através do corpo, ou seja, a utilização da linguagem não verbal. Ladeira e Darido demonstram preocupação com o tema, pois analisaram que é uma abordagem complexa e necessária para o avanço e desenvolvimento da educação física. Ainda, se fazem necessários mais pesquisas que abordem sobre estes estudos.

De forma concisa, as autoras nos presenteiam com um tema, num primeiro momento, intrigante e que, até segunda ordem, desconexo. Para muitos, quando nos deparamos com a educação física embutida na área das linguagens, códigos e suas tecnologias, logo pensam que só poder ser uma sandice quem a incluiu destarte nos PCNs. Ao se aprofundar no tema e destrinchar, através da semiologia, as inquietações que este assunto carrega, as autoras analisam e descrevem, de forma ímpar, como este fenômeno se torna possível. Com pouco tempo de leitura, já nos tornamos aptos a verificar quais são os aspectos que tornam a nossa área como algo nativo às linguagens. 

Creio que não há o que discordar quando assim se apresenta a comunicação não verbal como meio inexorável à educação física. Esta é corpo em movimento, sendo assim, a sua vocalização não é necessária. O corpo fala por si só.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sem recursos, educadora física mantém projeto esportivo no Rio

Através do futebol, Bárbara alimenta o sonho de muitos jovens

Nem tudo está perdido nesse nosso Brasilzão de Deus. Nem só de corrupção, violência, “petrolão, “mensalão” e outros “ãos” vivemos. Ainda há quem se interesse de forma altruísta pelo menos favorecido e um desses exemplos é a educadora física Bárbara Maria de Almeida.

Formada pela Universidade Unigranrio, no Rio de Janeiro, a carioca vem mostrando que é possível aliar o esporte ao combate à violência e realizar a tão sonhada inclusão social. A carioca de 30 anos, moradora de Duque de Caxias, é a responsável pelo projeto de futebol Centenário Esporte Clube, no bairro Corte Oito, que atende cerca de 120 crianças das comunidades carentes das localidades, Mangueirinha, Santuário e Morro do Sapo.

O sonho da jovem começou a se realizar no ano de 2009, desde lá, os meninos aprendem e praticam técnicas, táticas, regras e fundamentos do futebol de campo. Os treinos no campo da Barreirinha são nas segundas, quartas e quintas-feiras, manhã e tarde, e aos sábados das 14hs às 17hs.

Interessados em apoiar podem entrar em contato: (21) 36522598 e (21) 71263191.